Lirismo
A Voz da Serra - 05/07/2012 |
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Lirismo Gustavo Werneck werneckgustavo@yahoo.com.br
Estou embevecido pelo livro que terminei de ler. ?Quando Fui Outro?, cuja autoria pertence a Fernando Pessoa, é uma obra efervescente, impostada na batuta pingente de um lirismo procedendo a resultado em muito daquilo proposto com certeza aguda, pelas pessoas que têm capacidade de desenvolver a palavra escrita com precisão divina. O efeito sobre mim se fez bem mais poderoso do que ?Mensagem?. Não sei por que exatamente o que me acometeu tal fato. Por ser descritível de um lado invertido -, (da poesia até meu cérebro), como se ela fosse um recado guardado durante quase um século, em instantes absorvo sob a secura própria aquelas construções regimentadas perante o próprio modernismo vivido pelos irmãos Mário e Oswald de Andrade. Não sei divagar sobre as duas exuberâncias distintivas, em que nas mãos de Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro heterônimos de Pessoa produz uma contemporaneidade tão regular, que antevê aquilo que o mundo vive numa perpendicular parcimônia política. É neste mecanismo que o lirismo se atenua como arte literária liberta. Na poesia incutida pelas veias musicais à verve deste sistema, diz o quanto à alma pode ser traduzida sem questão relevante. A poesia é este caminho, onde o real capital na história do tempo irradiado, através destas mãos vazias da promiscuidade sociopolítica, que aí está, disseca como uma operação fugaz a realidade tão somente igualitária nos parcos momentos atuais. Nunca se mudou o rumo das condições humanas com poesia, entretanto, pedaços delas subvertem ambiguidades propondo de uma maneira distante a qualquer corporativismo teocrático, um sistema que existe sob o manto sujo, e na poesia, prosa, é o que mais revela a alma humana entretido na lei sem juiz, prisão, progresso. A glamourosa lei do homem, que acovarda pensamentos, pra achincalhar performáticos cidadãos fora da linha, em que se encontra todo lirismo ancestral nas páginas dos livros consagrados, sobrepõe a origem da escrita visceral num virtuoso caminho onde se leva a qualquer parte o dever por implicar o cronos do ter acima do ser. Esse lirismo também encontrado em romances abre o corpo da ideia, conforme uma autopsia expressamente necessitada, a fim de notar como a classificação do belo nas entrelinhas, deste jeito argumentado retrata a confirmação da deformidade humana, em pele, osso, fato, contudo, grande afinação entre palavra e mente revela ingrata fragrância, livre como andorinhas em revoadas eternas pra buscar o verão para as penas frágeis. Guimarães Rosa é um esteio, para a formação do lirismo contundente, na sempre aguçada Minas Gerais e seu Grande Sertão: Veredas. Clarice Lispector baseia-se em si própria revelando ao longo dos nove romances a mulher que é dama, a dama que é senhora, a senhora que é o estio dos serenos afagos tratados pelas palavras compromissadas a não enlouquecer pelo que não é. Vinicius de Moraes. O branco mais preto do Brasil, carioca mais baiano desta nação, molha seus pés em Mãe Menininha do Gatois, por fim situa-se portanto para prover seus sonetos delatando o amor num lirismo feito clássico, em cinema; canção embotada de lágrima quente, num teatro contando as boas novas de Orfeu Negro. Jorge Amado, o homem que fez a Bahia o seu Brasil sugere ser o próprio personagem distante das oligarquias opressoras, clã de papel sem véu e flor. Citar essas quatro grandes personagens do cenário brasileiro provém do instinto que a literatura incluindo Fernando Sabino, seja um contorno para um encontro marcado. As suas formas de escrever jamais dariam certos caso vivessem em outra época. E, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana são fontes inesgotáveis dentro da narrativa, tanto quanto se estirassem sobre a mesa sentimentos cujo mundo absorto de pouca inteligência, interferisse na prontidão lírica assentida por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Camões, contudo incutindo uma errática forma a fim de apontar os Lusíadas, em detrimento aos discursos performáticos, crispados pelas antagônicas políticas culturais insurgentes aos cofres públicos. Há na música entre poetas como Cazuza e Renato Russo consistência tenaz condizendo aquilo perfilado por Chico Buarque, Caetano Veloso e Sidney Muller, pontificando no pretérito pungente todo lirismo aplacado sob a direção dos gramáticos de ontem, hoje e sempre. Lirismo nada mais é que um sentindo a olho nu, sobre as cosias cujos sentimentos dizem calados para a própria consciência o mundo que há dentro você. Evoé, Fernando Pessoa! Evoé Ferreira Gullar!
Gustavo Werneck é jornalista |
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