2015/06/19 – Flash Vidas

RISO E SISO
por Margarida Rebelo Pinto

Cazuza morreu novo, depois de uma vida de excessos. Era um poeta, um exagerado, um apaixonado descontrolado mas Mesmo ele, no meio da sua loucura, acreditava que o amor precisa de garantias

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo”, cantava Cazuza, o ídolo pop do Brasil na década de 80. Cazuza morreu novo, depois de uma vida de excessos. Era um poeta, um exagerado, um apaixonado descontrolado. Era bonito, inteligente, mimado, imprevisível, fanfarrão, divertido e talentoso. Os amigos chamavam-lhe “cruz” pelo trabalho que dava e, diz a lenda, que dava os melhores beijos do mundo.

Uma das minhas músicas preferidas de Cazuza é ‘Todo o Amor Que Houver Nessa Vida’. Tem uma letra sábia e lúcida sobre a essência do amor que dá que pensar: “Ser artista no nosso convívio/pelo inferno e céu de todo o dia/prá poesia que a gente não vive/transformar o tédio em melodia”. Cazuza tinha horror ao tédio, como quase todas as pessoas, mas enfrentava-o com a sua existência errática, a sua loucura e as suas músicas.

Enfrentar o tédio é uma arte que requer trabalho; é saber valorizar a sorte quando encontramos uma pessoa que vale a pena e depois, puxar pela boa sorte para que a relação que se constrói com essa pessoa seja boa, feliz, equilibrada, e sobretudo leve. O amor e o humor são muito parecidos e não vivem um sem o outro, alimentando-se mutuamente. Quem não tem humor, tem falta de amor. Por outro lado, nas relações amorosas em que o humor é prato do dia, são fortes e duradouras. Quando o homem faz um mulher rir, está a transmitir-lhe segurança e vice-versa. O riso é um afrodisíaco sempre fresco e sempre eficaz. Riso e siso movem montanhas, constroem pontes, reconstroem famílias. Riso e siso temperados com leveza, para que a rotina não nos pese e os sonhos nos deixem voar.

É difícil? Claro que sim. Mas o coração é um músculo como outro qualquer outro e por isso também se treina. Há quem o treine para a tristeza, para a mágoa, para as guerras domésticas e quem o treine para a alegria, para a gratidão e para a paz no lar. Afinal, não se trata apenas de uma questão de estilo, mas de uma escolha do tipo de relação que queremos construir, sabendo de antemão o que nos faz mais ou menos felizes.

É preciso ter sorte para viver um amor tranquilo. Nem sempre quem amamos nos sabe dar essa paz. Às vezes é preciso desistir de um amor, por mais que ele nos pareça irresistível. Se o outro não está lá para nos dar o que precisamos, só serve para ocupar um espaço vazio e estéril. É como arrendar uma casa e depois não viver lá nem deixar que ninguém lá viva. Um amor tem de ser feliz, porque se não for feliz, não nos serve para nada. E a base da felicidade está na segurança, na confiança, na tranquilidade.

Cazuza deixou esse conceito de amor muito bem explicado: “Ser teu pão, ser tua comida/todo o amor que houver nesta vida/ e algum trocado para dar garantia”. Ora cá está outro segredo: uma garantia. Amar é sempre arriscado, mas há uma diferença entre uma pessoa experimentar com a ponta do pé se a água da piscina está fria ou atirar-se de cabeça sem ver se a piscina tem água. Mesmo o Cazuza, no meio da sua loucura, acreditava que o amor precisa de garantias. A conversa do género adoro-te mas não sei o que quero é chão que deu uvas. Quem diz que não sabe o que quer, é porque não quer e não sabe como dizer. O amor é, para o bem e para mal, cego e implacável.

Haja riso para o fazer leve e siso para o riscar da nossa vida quando não vale a pena, porque depois há sempre alguém que nos vai amar mais. E melhor. É apenas uma questão de tempo.

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