do UOL 13/06/201508h20

Giselle de Almeida
Do UOL, no Rio

Foi como embarcar num DeLorean que levava diretamente para o verão de 1982. Quem não viveu essa época teve a chance de testemunhar pela primeira vez a lona azul do Circo Voador em seu lugar de origem, a praia do Arpoador, no Rio de Janeiro -embora o clima de revival de um Dia dos Namorados chuvoso nem de longe indique que já houve ali um dos maiores caldeirões culturais do país. Criado em homenagem aos 30 anos de “Exagerado”, primeiro single solo de Cazuza, o evento mantém até domingo uma programação extensa, que começou com uma homenagem ao cantor na noite de estreia, na última sexta-feira (12).

Enquanto o coletivo de DJs Vinil é Arte abria a programação, Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, contava que o tributo ao filho no lugar onde ele começou sua trajetória artística tinha um significado especial. “Os fãs devem estar adorando. Eu, com 10 stents e um marcapasso, tenho que me segurar. É a prova de que ele fez muita coisa boa e continua superatual. Meu filho era uma força da natureza, cada vez mais sinto isso”, declarou.

Passava pouco das 22h quando Emílio Dantas, que deu vida ao cantor no musical “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”, aqueceu a plateia cantando um apanhado com alguns dos maiores sucessos de sua carreira. A trintona “Exagerado” abriu a apresentação, que durou cerca de cinquenta minutos. Em seguida, hits da época do Barão Vermelho como “Maior Abandonado”, “Bete Balanço”, “Pro Dia Nascer Feliz” e “Por Que a Gente É Assim?” se juntaram a clássicos da carreira solo do artista, como “Ideologia”, com um arranjo diferente, criado para o musical, e “O Tempo Não Para”. Mas foram os versos ácidos de “Brasil”, precedidos de um pequeno discurso do ator-cantor, que arrancaram mais aplausos da plateia.

“Nunca imaginei que me apresentaria no Circo Voador, aqui no Arpoador, mais de 30 anos depois. Com a turnê do musical estamos fazendo apresentações em praça pública, no Rio vai ser nos Arcos da Lapa. Mas meu lado Cazuza ficou um pouco triste por não ser na praia. Aqui é um espaço sagrado”, afirmou Emílio, no backstage.

Formada por Toni Platão, Liminha, João Barone, Dado Villa-Lobos e Kassin, a banda Todos os Envolvidos encerrou a noite com uma seleção de sucessos do rock nacional da década de 80 que empolgou os mais saudosistas. O repertório lembrou Titãs (“Diversão”, “Sonífera Ilha” e “Flores”), Paralamas do Sucesso (“Ska” e “Meu Erro”) e Ultraje a Rigor (“Inútil” e “Ciúme”). A Legião Urbana também foi bem representada com “Ainda é Cedo”, “Tempo Perdido” e “Geração Coca-Cola” – as duas últimas com Dado assumindo os vocais e realizando um sonho de adolescência.

“Não pude estar aqui em 82 porque repeti de ano. Tinha 16 anos e meus pais não deixaram. Um ano depois, toquei no Circo já na Lapa, no primeiro show da Legião no Rio”, conta o guitarrista, que morava em Brasília. Ele, que foi um dos convidados por Liminha a regravar a música “Exagerado” em seu 30º aniversário, diz que o evento representou um pouco do espírito do cantor. “Ele hoje com certeza estaria na contramão da caretice, dessa coisa reacionária. Duas velhinhas não podem se beijar na novela porque a bancada da igreja disse que não pode? Não sei onde isso vai parar”, afirmou.

Barone, que também era “muito garoto” para ter se apresentado sob a lona original, lembrou a importância do local para o movimento artístico da época. “Isso aqui foi um marco porque estávamos vivenciado um período de liberdade de expressão, depois de anos de ditadura, de censura. Nos tempos que estamos vivendo é preciso relembrar isso. A sociedade está ficando retrógrada. Não podemos perder a ternura”, declarou o baterista.

Antes de interpretar “Exagerado”, Toni também reforçou, no palco, que as homenagens ao cantor e ao tradicional espaço cultural é ir contra a caretice atual. “Celebrar os dois é apostar que ainda existem pessoas de mentes abertas”, disse o vocalista, que ainda interpretou os hits “Should I Stay or Should I Go?”, do The Clash, e uma versão rock’n’roll de “My Way”, famosa na voz de Frank Sinatra.

Ao fim do show, o cantor chamou Lucinha ao palco, que lembrou dos 25 anos de morte do filho, mesmo período em que coordena a Sociedade Viva Cazuza, sustentada em boa parte por direitos autorais. Pouco antes do bis (“O Tempo Não Para”), que acompanhou do palco, cantando junto, ela resumiu a noite: “Cazuza deve estar se divertindo”.

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