03-11-2019
O GLOBO- SP

Matheus Maciel

RIO – Diante da falta investimento público no cuidado com as áreas de lazer da cidade, cariocas arregaçam as mangas. Prova disso é o aumento considerável do número de espaços e monumentos adotados nos primeiros nove meses deste ano: se, em janeiro, eram 199, em setembro já somavam 290 — 45% a mais. O movimento voluntário, que acontece através do programa municipal Adote Rio, injetou até agora nesses locais R$ 13 milhões, dinheiro que a prefeitura, em crise econômica, não conseguiria aplicar para suprir as necessidades de manutenção e conservação desses pontos.

As adoções se espalham por toda a cidade, sendo a campeã a Barra da Tijuca, com 86 pontos. Na Zona Sul, são 83 espaços “abraçados”, em diferentes bairros. Logo atrás vem a Ilha do Governador, com 25 áreas sob os cuidados da população.

Na Praça Cazuza, no Leblon, o empresário Flávio Sarahyba, após investir num bar, resolveu estender a iniciativa para fora do estabelecimento. Os gastos com a praça ficam em torno de R$ 3 mil por mês. Antes de concluir a adoção, ele diz que entrou em contato com a mãe do músico, Lucinha Araújo.

— Ela ficou extremamente feliz com a notícia. Revitalizei a área, que estava extremamente abandonada. Era um refúgio de moradores de rua, nem a praça nem eles eram acolhidos. Agora, com o movimento do bar e a manutenção constante, o espaço está seguro, limpo e organizado — diz Sarahyba, que, há cinco meses à frente do espaço, deu início ao plantio de árvores e à construção de bancos de madeira.

O número de adoções, quando comparado ao universo disponível, ainda é baixo. Só de praças no programa há mais de duas mil, sendo 123 adotadas. A lista de adoções tem 54 canteiros, 48 áreas verdes, 18 árvores, seis monumentos, cinco parques, quatro trechos de orla, uma travessa, uma quadra, uma ciclofaixa, uma alameda e mais 28 locais classificados como “outros”.

O crescimento é avaliado com bons olhos pela diretora de Planejamento e Projetos da Fundação Parques e Jardins, Cristina Monteiro.

— É um movimento mundial, não podemos ir na contramão. O poder público não está conseguindo dar conta de cuidar dos espaços. A gente não está exatamente economizando porque já não teria verba para investir nesses locais. Não é uma economia. Vejo como uma colaboração para complementar o que não estamos sendo capazes de fazer sozinhos — admite Cristina.

Em outras capitais do país, como Porto Alegre e São Paulo, há programas semelhantes. Em Nova York, existe o POPS, criado em 1961 e que conta com 561 espaços públicos cuidados pela iniciativa privada. Lá, no entanto, há contrapartidas —renúncias fiscais e benefícios econômicos —combinadas entre o governo e o adotante.

Exploração comercial
Entre os cinco parques adotados na cidade está o das Figueiras, na Lagoa. Desde maio, através do Instituto Brasileiro de Cultura, Moda e Design, Robert Guimarães, diretor da Babilônia Feira Hype, faz a zeladoria do local. Ele conta que já investiu R$ 25 mil na recuperação de todo o gramado, destruído durante o carnaval, e que, para manter a área devidamente regada, desembolsa R$ 450 semanais.

— Reformamos o local, refazendo a pintura urbanística original. Também renovamos o gramado e fazemos a zeladoria do lugar, com pedidos de poda de árvores — diz o empresário, para quem o programa falha ao não permitir a exploração comercial da área adotada.

Ele conta que, apesar de fazer a gestão do espaço e arcar com os gastos do dia a dia, a Babilônia Feira Hype não tem qualquer vantagem econômica em relação aos outros eventos que utilizam o parque.

— É muito injusto para quem faz o esforço de ser adotante. Somos nós que cuidamos daqui, arcamos com as despesas e, mesmo assim, temos de pagar a taxa de uso no dia da feira para a prefeitura — critica Guimarães.

Ex-secretário de Envelhecimento Saudável, Qualidade de Vida e Eventos do Rio, Felipe Michel afirmou que pretende viabilizar a exploração comercial dos espaços por quem os adota. Ele deixou o cargo na última semana, temporariamente, para reassumir a cadeira de vereador (pelo PSDB) e ajudar o prefeito Marcelo Crivella em votações de seu interesse na Câmara.

— Essa demanda (da exploração comercial) existe e é possível por um mecanismo da Secretaria de Fazenda. Pretendemos abrir um processo simplificado para que, já na adoção, a pessoa ou empresa possa informar como quer explorar o local em contrapartida — diz Michel.

No comments

You can be the first one to leave a comment.

Leave a Reply

ERROR: si-captcha.php plugin says captcha_library not found.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>