Estadão/Seção-Sonia Racy
2014/04/08

Foto: Fabio Motta/Estadão

Mesmo sem saber ainda quanto receberá da ONG internacional amfAR – cujo leilão, sexta, arrecadou R$ 6 milhões –, Lucinha Araújo está satisfeita. Embora faça questão de ressaltar que não trabalha por dinheiro, ele será bem-vindo à sua Sociedade Viva Cazuza – que presta assistência a crianças e jovens carentes com Aids e também a pacientes em tratamento na rede pública do Rio. “É minha tábua de salvação”, diz. Aos 77 anos, a mãe do compositor de Ideologiafalou à coluna sobre a luta de sua ONG, a falta que sente do filho único e do marido, preconceito e a surra que deu em uma vizinha por causa de Cazuza.

O quanto é importante o apoio de entidades como a amfAR à ONG Viva Cazuza?

Não é pela quantia que receberemos – embora seja importante. A gente não trabalha para ser reconhecido, mas… é muito bom, né? O importante é que a Sociedade sobreviva depois que eu não estiver mais aqui. Os direitos autorais do Cazuza continuarão vindo pra cá, meu dinheiro e o do João (Araújo, marido de Lucinha, falecido em novembro do ano passado) também. Vou deixar em testamento.

Como está a ONG hoje?

Financeiramente, está bem. Estamos conseguindo pagar as contas. Ano passado foi o ano do Cazuza (o compositor faria 55 anos), então recebemos boas quantias de várias fontes, como o Rock in Rio e o musical O Tempo Não Para, do qual temos participação na bilheteria. Isso permitiu que fechássemos o ano no azul, depois de muito tempo no vermelho.

Gostou do musical?

Demais… Fui ver semanalmente durante seis meses. Devo ser masoquista. O Aloisio de Abreu foi muito feliz na interpretação do meu livro. O texto é espetacular. E os cantores são fantásticos, uma meninada de muito talento.

Os direitos autorais do Cazuza também ajudam?

Ajudam, mas é uma mixaria. A gente recebe trimestralmente, dá uns R$ 40 mil a cada vez. E eu gasto R$ 100 mil por mês na Sociedade. Às vezes, vendo uma música dele para uma campanha ou licencio alguma coisa. Aí, entra um dinheirinho a mais. A gente recebe doações, claro, algumas delas fixas, e também ajuda do Eduardo Paes (prefeito do Rio). Pelo segundo ano ele fechou parceria conosco, que nos permite pagar os funcionários.

A reforma da Praça Cazuza, aí no Rio, termina quando?

Está na metade. Quando o Marcello Alencar inaugurou, em 1991, foi uma alegria, mas, nos últimos tempos, ela estava abandonada, entregue às baratas. Aí eu disse para o Eduardo: “Ou você retira o nome do meu filho da praça ou reforma o lugar! Porque o Cazuza não merece uma coisa dessas”. O Eduardo é fã do Cazuza e isso ajudou, com certeza. Deve ser reinaugurada depois da Copa.

Como está lidando com a perda do João Araújo?

Agora estamos só eu e Deus, né? Fiquei casada por 57 anos… é muito tempo. E namorei 5 anos, desde os 15. Ele era tudo para mim, meu marido, meu amante, meu irmão… Não está sendo fácil, não.

O quanto Cazuza faz falta?

Ele era meu único filho, e um filho muito diferente. Cazuza me preocupou muito, me aborreceu muito, mas me deu tantas alegrias. Tínhamos um relacionamento meio tenso, meio harmônico, porque éramos muito parecidos. A gente se xingava, fazia as pazes, uma bagunça. Já com o João era diferente. Cazuza costumava dizer: “Mamãe me entende até no olhar, já para o papai eu tenho de explicar tudo!”. (risos)

Como foi descobrir que ele estava com Aids?

Terrível! Mas não quero me esquecer, porque o Cazuza era uma pessoa muito pra cima, muito alto-astral, divertida, mesmo na doença.

O preconceito foi um problema na época?

Foi, mas nunca deixamos que o Cazuza soubesse. Os episódios de preconceito contra ele eu mesma resolvi e o João também. Até dar uma surra em uma vizinha eu dei. Você imagina que ela pediu uma reunião de condomínio para exigir que o Cazuza não usasse mais o elevador? Eu avisei: “Um dia eu vou te encher de porrada, você não perde por esperar”. Pouco tempo depois que ele morreu, na porta do prédio, eu me encontrei com ela…

Mas bateu na frente de todo mundo?

Foi uma baixaria horrível (risos), mas bati mesmo. Apanhei também, mas lavei minha alma.

Alguma música do Cazuza lhe fala mais alto?

Gosto muito de Exagerado. Não foi feita pra mim, não, mas começa com:“Amor da minha vida/Daqui até a eternidade/Nossos destinos foram traçados/Na maternidade”. Tem tudo a ver, né? /DANIEL JAPIASSU

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