Combate Rock

07/07/2015 14:37 – UOL Entretenimento

Marcelo Moreira

Ninguém cantou melhor o blues no Brasil do que Cazuza. A afirmação foi feita nos anos 90 por um querido dono de sebo concorrido em São Paulo, que morreu alguns anos depois. Ele não hesitava em comparar o cantor de rock que tinha sido a voz do barão Vermelho com Elis Regina, a grande voz da música brasileira.

Vinte e cinco anos depois de sua morte, em 7 de julho de 1990, não houve cantor que conseguisse sequer igualar o carioca filho de executivo de gravadora no quesito qualidade vocal e de composição, intensidade de interpretação e carisma. Não dá nem mesmo para o incensado e superestimado Renato Russo.

Roqueiro de raiz, com DNA do cancioneiro nacional, Cazuza encarnou todos os demônios e anjos do show business, comportando-se como diva e como estrela, como músico compenetrado e comprometido, como criança mimada e insegura. Seguiu à risca a cartilha de um astro pop.

Foi meio que por acaso que surgiu com vocalista de uma banda promissora de moleques do Rio de Janeiro. Léo Jaime recusou o convite do amigo Guto Goffi, baterista, e indicou o jovem e tímido Agenor Neto. Quando ele abriu a boca no ensaio do Barão Vermelho, não impressionou pela voz, que nada tinha de espetacular, mas sim pela interpretação e pela postura.

Mesmo inexperiente, tinha um background que foi decisivo para empurrar a banda e as melodias certeiras compostas pelo parceiro e quase alma gêmea Roberto Frejat.

Seu envolvimento com literatura na escola o credenciou para ser um letrista diferenciado no nascente rock nacional dos anos 80, além da habilidade de escolher o parceiro certo na hora certa. Não demorou para ser conhecido como o poeta do rock nacional, com toda a Justiça.

Cazuza cantou rock com tanta intensidade tornou-se grande demais para os conflitos internos do Barão. Com a inevitável partida para a carreira solo, tonou-se imenso, e abraçou com força todas as consequências e os excessos.

O hedonismo e um aparente alcoolismo eram as faces mais visíveis do menino tímido que queria parecer o que não era. Não havia horizonte possível para o intérprete fascinado por mestres da MPB e do samba, com suas histórias tristes e canções mágicas. Elo entre dois mundos quase opostos, pavimentou o caminho para se tornar mito.

A descoberta de que tinha Aids acelerou tudo, todos os processos. A intensidade ficou mais intensa, as interpretações, cada vez mais dramáticas e desesperadas. Era um desespero pungente que evocava certa esperança, como declarou certa vez Caetano Veloso.

A agonia pública do cantor, como retratou de forma pouco elegante a revista Veja, em 1989, era só mais um ingrediente de uma personalidade exuberante e ansiosa diante de um fim próximo. Era inevitável que fosse daquele jeito, com costuma dizer o ex-parceiro Frejat.

Como os ídolos Janis Joplin e (um pouco menos) Jim Morrison (vocalista do The Doors morto em 1971), Cazuza representava rebeldia, transgressão, excesso e decadência, tudo combinado com uma elegância e um jeito próprio de sofrer e de expor o sofrimento. Ou seja, algo totalmente blues. Gente como Billie Holiday e Charlie Parker teria orgulho de tê-lo como parceiro.

O rock nacional perdeu o seu maior ícone há 25 anos e o Brasil, o seu maior cantor de blues. Nos próximos meses o mercado receberá uma enxurrada de relançamentos da carreira solo, do Barão Vermelho e de projetos especiais, como um CD com músicas compostas por vários artistas adaptando letras inéditas de Cazuza. Isso sim é que um verdadeiro tributo a um mestre.

No comments

You can be the first one to leave a comment.

Leave a Reply

ERROR: si-captcha.php plugin says captcha_library not found.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>