POR RAQUEL PINHEIROS; FOTOS DE LIPE BORGES

Aos 77 anos, ela conta como convive com a saudade do filho, Cazuza, e do marido, João Araújo, mas afirma que não tem o direito de ficar triste. Um dos símbolos da luta contra a Aids no Brasil, ela afirma já ter preparado sua sucessão à frente da Sociedade Viva Cazuza e diz ter certeza de que encontrará o cantor após a morte

Lucinha Araújo é taxativa: não se dá o direito de ficar triste por causa do único filho, o cantor Cazuza, morto em 1990, aos 32 anos, em decorrência de complicações causadas pelo vírus da Aids. “Quem teve um filho como o meu, tão forte, que passou pelo que passou, não pode ser diferente”, afirma ela, em seu escritório na Sociedade Viva Cazuza, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A entidade, presta assistência a crianças e adolescentes portadores do vírus HIV e foi criada por Lucinha para dar continuidade à luta do filho. Ali, ela é chamada de “tia” e, entre lágrimas e risos, conta como é a batalha para manter a instituição.

“Gastamos mais de 100 mil reais por mês”, explica ela, que já fechou as contas de 2014 com a bilheteria de Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical, o qual vê semanalmente para matar a saudade do filho. O sentimento, Lucinha explica, é o que lhe sobrou após a perda de Cazuza e do marido, o produtor musical João Araújo, morto aos 78 anos, em novembro passado. “Ainda não me acostumei a dormir na casa sozinha”, confessa ela. Após lançar três livros sobre a trajetória do filho, a próxima obra contará a história da vida do marido, que esteve à frente da gravadora Som Livre por 40 anos e lançou nomes como Gal Costa, Caetano Veloso, Djavan e Xuxa.

Eu fiquei sozinha no mundo, perdi os dois entes mais queridos que já tive na vida, meu marido e meu filho”

QUEM: Como está a Sociedade Viva Cazuza?
LUCINHA ARAÚJO:
Temos 22 crianças e adolescentes aqui, mas no total já passaram por nós 98 crianças. Só quatro foram a óbito, o que é um índice bom. Muitos bebês estão sendo adotados, e o mais velho da casa tem 20 anos.

QUEM: A senhora se preo­cupa com o futuro da Sociedade, quando não puder mais estar tão envolvida?
LA:
Só saio daqui no dia em que eu for para o São João Batista (cemitério na Zona Sul do Rio de Janeiro) ou se estiver com uma doença senil. Tenho uma gerente que está comigo há 22 anos, uma equipe muito boa que anda sem mim. Fizemos um testamento, João e eu, e tudo nosso vai para a Sociedade Viva Cazuza. Enquanto eu tiver saúde, estamos aí. Tenho dez stents, marca-passo, tive câncer, mas eu nunca deixo cair a peteca. Não me dou o direito de ficar mais de dez minutos triste. Quem teve um filho como o meu, tão forte, que passou pelo que passou, não pode ser diferente.

QUEM: É difícil manter a Sociedade Viva Cazuza?
LA:
Estamos bem porque recebeu-se muito dinheiro com as homenagens a Cazuza no ano passado. Cobro tudo. Cinco anos atrás, passamos um perrengue grande, os direitos autorais dele não estavam rendendo tanto. Aí, fiz leilão, pedi ajuda. Gastamos mais de 100 mil reais por mês na Sociedade Viva Cazuza. Agora, com a bilheteria do musical, o ano de 2014 já está fechado.

QUEM: E 2015?
LA:
Deus proverá.

QUEM: Ainda há muito preconceito em relação à Aids?
LA:
Hoje em dia, nem tanto. Na época de Cazuza, era bem pior, mas ele não sofreu discriminação violenta porque eu não deixei que soubesse. Ele dizia ?Tive uma sorte!?, e eu concordava, ?É meu filho, você é um homem de sorte?.

QUEM: Verdade que bateu em uma vizinha que discriminou Cazuza?
LA:
(Risos) Bati e bateria quantas vezes tivesse que bater. Não sou uma pessoa que diz ?Deus vai castigar ou eu não sou ninguém?. Sou, sim, e castigo na hora. Cazuza estava muito doente e essa mulher fez um movimento para não deixá-lo usar o elevador porque as pessoas iam pegar Aids. Cazuza morreu um mês depois. Um dia, avancei nela, bati, bati. Apanhei, também (risos). Eu falava ?Desejo que você fique pobre?. Ela se mudou em seis meses, foi embora deitada no chão de uma Kombi de tantas dívidas.

QUEM: Arrepende-se de algo em relação a Cazuza?
LA:
Não, fiz tudo por amor. Eu só tive aquele filho e filho não vem com bula. Ele me deu muito trabalho, não vou dizer que só me deu alegria, apesar de que as tristezas eu esqueci.

QUEM: Vocês se davam bem?
LA:
Batíamos boca diariamente, éramos muito parecidos. Com João, ele não se fazia de bobo, ia mandar o pai tomar no c…? Nunca. E a mim ele mandava. Eu xingava também, expulsava Cazuza da minha casa. Eu sempre cedia no final, e não me arrependo.

QUEM: Como acha que ele reagiria aos protestos recentes no Brasil?
LA:
Cazuza ficou politizado depois que adoeceu, dizia ?Vou parar de olhar para o meu próprio umbigo e vou cantar o meu país?. Ele teria continuado a fazer canções de protesto e ficado muito triste com o que está acontecendo. Com toda certeza, teria ido para a rua.

Tenho pena de Cazuza não ter tido um filho. Ele queria adotar uma “

QUEM: Como é sua rotina hoje?
LA:
Acordo e vejo o que tenho que fazer, chego aqui por volta das 13h30 e às 19h vou embora. Agora todo mundo está preocupado comigo, querendo dormir lá em casa. João e eu ficamos 57 anos juntos, casei com 20 anos. Ele sempre foi muito bonito, era de parar a estação. João odiava cenas de ciúme, ficava p…. Mas vontade (de fazer uma cena) bem que eu tinha, porque as mulheres ficavam em cima.

QUEM: Como a senhora está lidando com mais essa perda?
LA:
João estava doente, era diabético e tinha problemas renais. Teve um ataque cardíaco, o que foi bom, porque ia ter que fazer hemodiálise. Mas para quem fica é muito ruim. A morte é uma coisa horrível, detesto. Ainda não me acostumei a dormir na cama sozinha. No começo, virava para o lado, colocava a mão e o travesseiro vazio. Eu quero me mudar por isso, não estou aguentando. Está duro (se emociona). Cazuza morreu nesse quarto, João também, é demais, foram os dois (chora). Eu fiquei sozinha no mundo, perdi os dois entes mais queridos que já tive na vida, meu marido e meu filho.

QUEM: A morte de Cazuza uniu ainda mais vocês?
LA:
Foi um motivo de união, sim. Eu e João nunca choramos juntos, ele chorava sozinho, e eu chorava sozinha, um queria poupar o outro. João era muito bom pai. No velório de Cazuza, o corpo chegou, João passou mal e foi para casa. Ele só conheceu o túmulo do Cazuza no seu próprio enterro.

QUEM: Em algum momento questionou por que essas coisas aconteceram com a senhora?
LA:
Deus me deve uma resposta. Talvez seja a fundação da Sociedade Viva Cazuza, mas isso não resolve a minha vida. Meu filho nunca fez mal nenhum a não ser a ele mesmo, por que esse castigo? Todos os amigos dele faziam a mesma coisa e ninguém ficou doente, está todo mundo casadinho com seus filhinhos. Acredito em Deus, mas tudo que passei me afastou um pouco da igreja.

QUEM: Seu filho teve uma missão na vida?
LA:
Sim, viveu intensamente, fez várias maluquices e morreu jovem. A única coisa boa foi não ter ficado velho, o resto é tudo ruim. Tenho pena de Cazuza não ter tido um filho. Ele queria adotar uma criança, mas descobriu que estava doente e desistiu.

QUEM: Acredita que ainda vai reencontrá-lo?
LA:
Tenho certeza. João já encontrou. Morrer e acabar é muito pouco. Tem que ter outra coisa. Sinto muito a presença de Cazuza, quando tenho uma dúvida sobre uma decisão peço um sinal. Eu ligo o rádio, ele está cantando. Nunca falhou. Uma dia, acordei de madrugada e vi uma figura de branco, barba branca, uma mulher do lado. Era o Cazuza velho e minha mãe.

QUEM: A senhora já disse que só as mães são felizes. É feliz?
LA:
As mães só são felizes quando os filhos são felizes. Então, se há filho feliz, há mãe feliz. É uma frase muito utópica, né? Não vou dizer que sou feliz, mas tenho momentos de felicidade. Quando vejo uma pessoa falar bem do Cazuza, é o céu para mim. Vivo da saudade do meu filho e agora da saudade do meu marido.

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Que Deus possa LHE ABENÇOAR por tudo Dona Lucinha, pois sua doação em favor de quem precisa é algo digno de aplausos ontem, hoje e amanhã! Admiro a senhora demais.

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