O historiador André Diniz e o pesquisador de música brasileira Diogo Cunha selecionaram músicas da queda da monarquia ao governo Dilma

POR MARIANA FILGUEIRAS

14/09/2014 O Globo

RIO – “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz…”, cantou a Imperatriz Leopoldinense em 1989, levando o caneco daquele carnaval. Para quem não se lembra, o refrão-libelo dos compositores Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentinho e Jurandir, um clássico de qualquer roda de samba, celebrava a República, então uma vetusta senhora comemorando cem anos.

E foi a partir dela, a República – hoje um pouco mais rejuvenescida e buliçosa, às vésperas de mais uma eleição presidencial -, que o historiador André Diniz e o pesquisador de música brasileira Diogo Cunha deram início a um levantamento do tamanho de uma Marquês de Sapucaí em domingo de carnaval: a lista das canções brasileiras que contam a história política do país.

Da queda da monarquia ao governo Dilma, os dois chegaram a 200 músicas, cujas histórias, esmiuçadas, compõem o livro que acaba de ser lançado pela Zahar “A República cantada: do choro ao funk, a história do Brasil através da música”.

– A pesquisa começou há quase dez anos, era um Frankenstein, muito grande. São cem anos de música e de história do Brasil – relata Diniz, que abandonou a ideia na gaveta e nesse meio-tempo lançou o “Almanaque do carnaval”, o “Almanaque do choro”, o “Almanaque do samba” e as biografias “Joaquim Callado, o pai do choro” e “O Rio musical de Anacleto de Medeiros”. – O grande barato foi compreender que a música brasileira não é só boa para ouvir, ela é boa para conhecer a história do país, para entender os muitos países que existem dentro do Brasil. O livro recupera a história política, quando o mais comum é recuperar a história cultural. Não foi simples. Nosso corte foram os acontecimentos políticos mais importantes desse período entre 1889 e 2014. Tanto é que nós citamos todos os presidentes. Todos foram cantados.

A varredura passa por lundus, modinhas, hinos, enredos de clubes de carnaval, polcas, maxixes, choros, marchas, ranchos, sambas, bossas, rocks, raps, funks. Todos os principais episódios históricos do país foram referenciados por músicas, como indica a pesquisa da dupla – das crises do governo do marechal Floriano Peixoto (fez muito sucesso no carnaval de 1893 a pagodeira “Florianal”, que satirizava o então presidente, mas não da forma que o leitor pode estar pensando) às manifestações de 2013 (representadas pela música “Vem pra rua”, do grupo O Rappa). Uma das conclusões de Diniz é que não há um período mais crítico do que outro.

– As pessoas tendem a achar que na ditadura militar a música foi mais crítica. Na ditadura, o processo crítico foi mais complexo, mas não necessariamente mais profícuo. A ditadura é um momento em que a música faz uma interlocução com outras linguagens, e desse ponto de vista é um momento singular. Mas há muitos momentos em que a música se colocava também como bandeira. Por exemplo, a geração do BRock estava tão sufocada que, quando se expressa, vai num crescente que diz até que vai matar o presidente (refere-se à música “Tô feliz (matei o presidente)”, do rapper Gabriel O Pensador, composta no governo Collor). Cada momento tem sua reflexão crítica própria.

O pesquisador Diogo Cunha, coautor, com Diniz, dos livros “Nelson Sargento” e “Na passarela do samba”, lembra que nem só de grandes episódios se alimenta a crônica pulsante das canções brasileiras. Pelo contrário. Muitos acontecimentos corriqueiros e notícias comezinhas também foram lembrados pelo cancioneiro popular.

Ele cita um episódio ocorrido durante a gestão turbulenta do marechal Hermes da Fonseca, que foi presidente entre 1910 e 1914 e era chamado nas ruas de “Dudu”. Certa vez, ele pegou dinheiro emprestado de um banco inglês e decidiu aplicá-lo num russo. Mas o montante do militar foi confiscado pelo governo para financiar a ditadura comunista. O povo não aguentou. Tornou-se popular a canção “Ai, Philomena”, do compositor J. Carvalho, lançada em 1915: “Ai, Philomena, se eu fosse como tu/ Tirava a urucubaca da careca do Dudu”.

Outra história garimpada por eles foi a da marchinha “Seu Julinho”, composta por Sinhô para enaltecer Júlio Prestes, então candidato à Presidência numa eleição que caiu num domingo… de carnaval. Dizia a letra: “Eu ouço falar/ Que, para o nosso bem, Jesus já designou/Que seu Julinho é que vem”.

– Muitas músicas sumiram por serem datadas, e por isso nos causaram tanta surpresa quando as descobrimos – nota Cunha, para quem a maior surpresa foi a descoberta da música “Rei Chicão”, de Wilson Baptista, uma clara alusão ao presidente Getúlio Vargas. – Na letra, ele diz “Hoje quem sobe o morro vê aquele velho caído no chão, não conhece sua história, ele foi o Rei Chicão/ Foi há mais de trinta anos, ajudou a vencer a revolução, as autoridades lhe entregaram o morro, ele então coroou-se Rei Chicão” (cantarola). Quase não é conhecida, é uma canção belíssima.

De todos os presidentes, Getúlio Vargas foi o mais cantado, contam os pesquisadores, que dedicaram a ele um capítulo. Em 1932, Lamartine Babo compôs a marcha “Gê-é-Gê”; em 1938, a dupla Nássara e Cristóvão Alencar tornou popular a cantiga “A menina presidência”. No carnaval de 1956, a Mangueira defendeu o samba “O grande presidente”, de Padeirinho. Anos depois, a dupla Alvarenga e Ranchinho cantou “Quem não conhece esse baixinho, tão gordinho, que agora tá quietinho?

Já morou lá no Catete quinze anos, hoje tá só ‘urubuservano'”. Nem Chico Buarque resistiu: em parceria com Edu Lobo, compôs “Doutor Getúlio” (“Abram alas que o Gegê vai passar…”). A lista é tão rica que em 1989 foi lançado um álbum por Beth Carvalho e João Nogueira intitulado “O grande presidente: homenagem à memória do presidente Getúlio Vargas”.

O contrário também está no livro, que é recheado de informações históricas complementares e curiosas: a música preferida de Getúlio era “A jardineira”, dos compositores Benedito Lacerda e Humberto Porto. Nos momentos de aflição, contam Diniz e Cunha, Getúlio pedia para o “cantor das multidões” Orlando Silva entoar os versos da “camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”.

Juscelino Kubitschek também foi bastante cantado, bem como os desmandos de Jânio Quadros e o poder escasso de João Goulart (foi para ele que Herivelto Martins compôs “Que rei sou eu”, canção que ironizava seu esvaziamento político com os versos “que rei sou eu/ sem reinado e sem coroa, sem castelo e sem rainha”).

A ditadura militar ganha um capítulo detalhado, com linha do tempo para ajudar o leitor a não se perder no período que deu à história da música popular pérolas como “Cálice”, “Vai passar” ou “Para não dizer que não falei de flores” – aliás, quem pensaria que o presidente militar Costa e Silva, por exemplo, adorava “Carolina”, de Chico Buarque.

– A história da música brasileira é riquíssima, cheia de detalhes surpreendentes e saborosos, mesmo num tema que em princípio soa árido, como a política – reforça Diniz. – A crítica está por toda parte, quem acha que a música brasileira é alienada é porque não a conhece.

Um dos exemplos é o da “Geração Coca-Cola”, referência à música homônima do grupo Legião Urbana: listadas, as canções com referências políticas da geração Diretas Já somam quase 30 exemplos. Entre elas, “Homem primata”, dos Titãs; “Inútil”, do Ultraje a Rigor”; “O eleito”, de Lobão em parceria com Bernardo Vilhena, que atacava até a faceta de escritor do então presidente Sarney; “Que país é esse”, também do Legião Urbana; “Ideologia”, de Cazuza; e “É”, de Gonzaguinha.

Dos tempos mais recentes, já nos anos 1990, os pesquisadores garimparam preciosidades como um samba-enredo de Lenine e Bráulio Tavares para o bloco de carnaval Suvaco do Cristo fazendo críticas à gestão do ex-presidente Collor (E a República República dos vira-latas, das concordatas, do economês/ República do golpe baixo, é muito escracho com a cara de vocês); uma música de Gaúcho da Fronteira ironizando a ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello (Tia Zélia disse e falou: não é como antigamente/ O povo que se prepare, no pacote tem presente); e o samba-jingle Se não fosse a ajuda da rapaziada, um escracho do repertório de Bezerra da Silva, do mesmo período, que cantava É o candidato caô, só visita o morro quando é tempo de eleições.

– O final dos anos 1990 também é rico em canções críticas, mas muitos só se lembram das mais conhecidas, como Herbert Vianna cantando os trezentos picaretas com anel de doutor ou o Rap da felicidade, do Cidinho e Doca lista Cunha, lembrando ainda que o paralelo paulistano do famoso verso Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci… é o refrão do pagode Senhor presidente, do grupo Negritude Júnior: – Senhor presidente, espero que se encontre bem, pois a nossa gente ainda anda esmagada no trem, idosos vendendo pipoca e amendoim, que país é este, meu Deus, o que será de mim?.

O livro, que será lançado no próximo sábado com uma roda de samba temática no Candongueiro, em Niterói, tem ainda referências ao grupo pernambucano Nação Zumbi (A cidade); ao grupo de reggae Tribo de Jah (Globalização, música que cita até a crise dos tigres asiáticos na virada dos anos 2000); ao rapper Gog (Ei, presidente); à dupla de repentistas Caju e Castanha (A Fome Zero zerou); e até ao grupo de funk Gaiola das Popozudas (Funk do Lula, que começa com os versos emblemáticos Conheci o Lula no Complexo do Alemão, e ele não tirou o olho do meu popozão e termina com O funk não é problema, para alguns jovens é a solução, quem sabe algum dia viro ministra da Educação).

Se estas eleições ainda não renderam nenhuma música, a conclusão a que se chega ao final da leitura do livro é que é só uma questão de tempo. Um último exemplo? Na campanha presidencial de 2010, durante um corpo-a-corpo, o então candidato José Serra fora atingido por uma bolinha de papel, incidente que o levou ao hospital para um raio x. O episódio não demorou muito para ser transformado em samba, no caso, Bolinha de papel, de autoria de Tantinho da Mangueira e do atual presidente da Portela, Serginho Procópio.

Serviço:

?A República cantada: do choro ao funk, a história do Brasil através da música?

Autores: André Diniz e Diogo Cunha

Editora: Zahar

Quanto: R$ 39,90

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