Cazuza em show no Palace, em São Paulo, em 1988
Masao Goto Filho/Folhapress
RODOLFO VIANA
DE SÃO PAULO

05/08/2016 17h12

Depois de compor “Que País É Este”, em 1978, Renato Russo levou quase uma década para gravá-la. No encarte do disco, explicou que a canção “nunca foi gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar o país, tornando-se a música então totalmente obsoleta”.

Mas no lançamento do terceiro álbum da banda brasiliense, em 1987, a esperança se mostrava descabida. Ressoavam novos os antigos versos-protesto: “Nas favelas, no Senado,/ Sujeira pra todo lado./ Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação”.

Nos anos 1980, “a população tinha expectativa de um novo Brasil, que surgisse a partir das Diretas Já, com ética na política. E não foi o que aconteceu”, diz o jornalista Mario Luis Grangeia, autor de “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a Transição Democrática”.

A obra é o desdobramento de um estudo que Grangeia iniciou há dez anos na PUC-RJ. O autor revisitou as discografias de Cazuza –com o Barão Vermelho e em carreira solo– e Renato Russo –junto ao Aborto Elétrico, depois com a Legião Urbana. Também analisou canções que não foram gravadas e entrevistas concedidas pelos músicos.

Grangeia buscou compreender como os dois ícones do rock vocalizaram sonhos e desilusões da sociedade durante a redemocratização.

“O Brasil esperado para depois da ditadura não foi o Brasil que o povo encontrou”, diz o autor. O país se viu em joguetes políticos, planos econômicos catastróficos e um sem-fim de casos de corrupção.

“Os dois artistas souberam traduzir o contraste entre sonho e frustração”, diz. Frustração que levou Cazuza a dois gestos contados no livro.

Adi Leite-12.ago.1990/Folhapress

Em 15 de janeiro de 1985, no Rock in Rio, cantou “Pro Dia Nascer Feliz” abraçado a uma bandeira do Brasil. Estava confiante em Tancredo Neves, eleito presidente naquela noite. Mas Tancredo morreu e José Sarney assumiu. Três anos depois, Cazuza, desapontado com os rumos do país, cuspiu na mesma bandeira durante um show no Canecão.

Apesar de ambos serem arautos dos sonhos perdidos, Grangeia mostra que seus discursos se inverteram conforme seguiam compondo.

“Renato começou na linha mais punk do Aborto Elétrico, chutando o balde, colocando o dedo na ferida da sociedade com ‘Geração Coca-Cola’, ‘Que País É Este’… E nos últimos discos da Legião estava mais voltado para questões íntimas”, diz o autor.

Cazuza fez o oposto. “Começa mais na esfera dos dramas privados do jovem urbano e, depois que sai do Barão Vermelho, passa a explorar a vida pública com ‘Ideologia’, ‘O Tempo Não Para’, ‘Brasil’…”

“E não haveria ‘Brasil’ se não tivesse havido ‘Que País É Este'”, diz Grangeia, para quem a música escrita em 1978 permanece atual. Afinal, “o país que viria depois do regime militar não veio até hoje”.

*

BRASIL: CAZUZA, RENATO RUSSO E TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
AUTOR Mario Luis Grangeia
EDITORA Civilização Brasileira
QUANTO R$ 32,90 (176 págs.)

URL original: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/08/1799364-livro-mostra-como-cazuza-e-renato-russo-vocalizaram-sonhos-e-desilusoes.shtml

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