2015/09/03 Diário de Cuiabá

Em 1988, Cazuza disse querer uma “ideologia pra viver”. Sua desilusão era visível. Mas, na verdade, não estaria ele querendo uma “contra ideologia”, uma vez que o poeta já respirava a ideologia no cotidiano?

Como assim?

Se aceitarmos a compilação teórica feita por Marilena Chauí, veremos que “ideologia” se refere ao conjunto de ideias ou representações que tentam explicar, justificar e compreender a ordem social vigente. Contudo, essas ideias ou representações tendem a esconder dos sujeitos o modo real como suas relações sociais são produzidas, bem como a origem das formas de exploração econômica e de dominação política.

Logo, a “ideologia” oculta a realidade. Nesse ocultamento, prevalece o ponto de vista de uma classe social a respeito da realidade. Dessa prevalência, dentre outros fatores, formam-se e são consolidadas as ideias dominantes sobre um determinado grupo social.

Se isso for aceito, todos os que se opõem aos status quo almejam uma contra ideologia para viver, uma vez que se opõem à ideologia.

Parece ser o caso de Cazuza, mas não só dele.

Dentre as oposições às regras do jogo atual, está parte do ensino nas escolas do Movimento dos Sem Terra (MST), que – até para manter a coerência – nunca deve usar nada da estrutura do Estado para suas manifestações. Incluo nisso eventual utilização de ônibus escolar.

Ressalva feita, o fato é que essa postura pedagógica do MST de questionar o modelo social está incomodando a Secretaria de Educação (Seduc) de MT, que poderá lançar mão do Projeto de Lei (PL) 1.411/2015. Este PL – pasmem – “prevê pena de três meses a um ano, além de multa, ao professor que ‘assediar ideologicamente’ seus estudantes”.

Nesse sentido, o secretário de Educação, Permínio Pinto (PSDB), disse ao site RDNews estar “tomando as medidas necessárias. O ensino é público e o sistema da Seduc tem que ser obedecido. As bandeiras de movimentos não voltadas ao ensino têm que ser banidas. As escolas não podem ter viés ideológico”.

Dito assim, o secretário teria de tomar “medidas necessárias” contra todas as escolas de MT. Posto que elas sustentam um dos aparelhos ideológicos do Estado, todas são ideológicas; andam nos trilhos do sistema. As do MST questionam tais trilhos, caminhando por outros espaços da produção e reflexão humanas; logo, são contraideológicas.

Mas na barca do equívoco, sobre essa questão, também cabe a matéria “Escolas de comunismo”, publicada pelo Diário de Cuiabá (DC: 25/08/15: B1). Na verdade, uma conivência com a visão – aí, sim, ideológica – de Permínio.

Como a referida matéria é patrocinada por uma escola evangélica, talvez por isso, e outros detalhes, o texto é tão ideológico. Não é sem motivo que sua linha fina tem início com o advérbio de tempo “finalmente”, que serve como desabafo na escritura.

Na esteira editorial da Revista Veja, a matéria do DC mostra seu incômodo até com um concurso de poemas a crianças do MST, que tinham de “enaltecer o comunismo e denegrir a imagem do agronegócio”.

Pouco adiante, são citados nomes de escolas do MST que homenageiam revolucionários, como Guevara, Antônio Conselheiro e Florestan Fernandes.

Pergunto: por que não questionarmos também os nomes de escolas estaduais verdadeiramente ideológicas, como Presidente Médici, Jaime e Júlio Campos, Dante de Oliveira, André Maggi e outros? Ou esses nomes não seriam considerados ideológicos?

Faço esses questionamentos aos colegas trabalhadores do jornalismo por entender a importância, a responsabilidade e a abrangência social que temos.

* ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – doutor em jornalismo/USP; professor de literatura/UFMT

No comments

You can be the first one to leave a comment.

Leave a Reply

ERROR: si-captcha.php plugin says captcha_library not found.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>