2015/06/10 – Diário de São Paulo

Eternamente Cazuza: “Roqueiro não tem mãe”

Lucinha Araújo fala sobre seu novo livro e a nova versão de Exagerado.

RODRIGO: Como é o trabalho de manter viva a memória de um ídolo do rock?

LUCINHA: Muito fácil, dada a sua importância no cenário musical brasileiro. Muito difícil é viver sem o meu menino, ídolo da minha vida.

Qual sua música preferida do Cazuza? E qual você não gosta?

Todas. Dependendo do meu estado de espírito. Mas, tenho um carinho especial por “Um trem pras estrelas”, dele e do Gil. Não existe nenhuma da qual eu não goste, sou tiete mesmo.

Você lembra da época que Exagerado estourou? O que você achou da nova versão Exagerado 3.0?

Claro que sim, já passaram 30 anos, grande sucesso esta música autobiográfica apesar de ter sido composta inspirada no Ezequiel Neves. Quanto a nova versão, gostei muito também, é uma releitura moderna e interessante sem perder a essência.

Você lembra de alguma história de camarim do Cazuza?

Lembro de várias, apesar do que ele não apreciava muito a minha entrada nos camarins, dizendo que roqueiro não tem mãe. Claro que todos os roqueiros tem mãe, ainda bem, mas talvez por ele ter sido filho único, eu tenha me esmerado mais na chatice. Amor, garanto que não faltou, sobrou. Histórias de camarim estão no filme, de modo muito interessante. Quem viu, gostou.

No ano 2000, bem antes do filme e do novo musical sobre o Cazuza, aconteceu Cazas de Cazuza, que tive a sorte de escrever e dirigir e que se tornou um marco do teatro musical brasileiro, vista por 400 mil pessoas. Qual a sua memória mais forte das temporadas daquele espetáculo?

Claro que o espetáculo foi uma das melhores coisas que se fez de Cazuza, e além de um marco no teatro musical brasileiro mais uma vez ficou comprovado que a figura de Cazuza é inesgotável, mágica e muito interessante. Nunca mais esquecerei este espetáculo, quero bis.

Mais um livro está a caminho em parceria com a escritora Regina Echeverria. Desta vez, sobre sua outra grande paixão, João Araújo, pai de Cazuza e da indústria fonográfica brasileira. Você pode nos adiantar um pouco sobre o livro?

João merece um livro sobre sua carreira. Há muito tempo, que queria que ele fizesse, mas sua modéstia o impediu. Regina foi escolhida por motivos óbvios e pela confiança que nela deposito. Meu marido foi a figura mais importante que já houve na indústria fonográfica deste país, e além disso o único a ter um filho famoso paralelamente ao seu trabalho, sem precisar de sua ajuda, porque gênios se revelam sozinhos. Dá para notar que se tratando dos dois homens da minha vida, não tenho o menor pudor em minhas declarações, não é? Será um livro sobre João, Cazuza e humildemente eu, no vértice deste triângulo entrevistas de seus amigos e artistas. Acho que vai ser um sucesso.

Só as mães são felizes?

Nem sempre as mães são felizes, porque só existe mãe feliz com filho feliz. Mas concordo com esta frase do grande poeta, Jack Kerouac.

Para você qual mensagem mais forte Cazuza deixou para o universo?

Além de belas e inesquecíveis canções, sua mensagem foi a de coragem, de se declarar soropositivo no auge de sua carreira, servindo de exemplo a milhões que, como ele, sofriam desta doença. Muito me orgulha sua coragem.

O que mudou no panorama da luta contra a Aids no Brasil nos últimos 20 anos? Quais foram as maiores conquistas? Como sobrevive a sociedade Viva Cazuza?

Mudou tudo. Hoje existem mais de 20 antirretrovirais fornecidos gratuitamente no Brasil pelo governo. Os pacientes que seguem com rigor o tratamento tem uma vida praticamente normal, isso mudou a cara da Aids. Se por um lado o tratamento deu qualidade e quantidade de vida aos pacientes por outro fez com que a nova geração passasse a tratar a Aids como um problema resolvido ou de maneira banalizada. O resultado disso é que há cinco anos o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde mostra que jovens entre 15 e 24 anos estão um dos grupos mais vulneráveis para o HIV. Está na hora de voltarmos a uma campanha intensa de prevenção. Infelizmente a Aids ainda não tem cara e não tem cura. A Viva Cazuza sobrevive dos direitos autorais de Cazuza, doações, eventos beneficentes e eventuais convênios com a Rede Pública, em particular com a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro.

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