21-08-2019
O Globo- SP
Silvio Essinger
Foto: O Barão Vermelho em 2019: Fernando Magalhães (à esquerda), Maurício Barros, Rodrigo Suricato e Guto Goffi Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

Com o novo vocalista Rodrigo Suricato e buscando público jovem, grupo carioca lança ‘Viva’, seu primeiro álbum de inéditas em 15 anos

RIO – Depois de “Barão pra sempre” (2018), EP em que regravou alguns de seus grandes sucessos, chegou a hora da verdade: na última sexta-feira o Barão Vermelho voltou às plataformas de streaming com “Viva” , seu primeiro álbum de inéditas com o vocalista e guitarrista Rodrigo Suricato, que há dois anos substituiu Roberto Frejat (cantor do grupo desde 1985, com a saída de Cazuza ). “Viva” é também a primeira coleção de novas canções dos cariocas desde “Barão Vermelho”, disco de 2004.

— Parte do plano era soar como uma banda de 2019, o disco aponta para o que viemos ouvindo nos últimos 15 anos. Queremos nos comunicar com a galera mais jovem, não parecer um grupo que olha para trás — conta Mauricio Barros, produtor de “Viva”, além de tecladista e fundador da banda, à qual foi reintegrado oficialmente em 2017. — Mas precisávamos deixar claro que aquilo ali era o Barão Vermelho. Tanto que a primeira música que escolhemos como single, “A solidão te engole vivo” , representava aquilo que, nas nossas cabeças, era o Barão de sempre.

Também fundador do grupo, em 1981, o baterista Guto Goffi completa o pensamento de Maurício:

— O rock é uma música engessada, se você não tentar se reinventar, vai ficar com um pirulito na mão. Esse agora é um disco de sobrevivência. A gente estava neutralizado há anos, sem produzir nada, fazendo apenas turnês quando todos concordavam em fazer. Esse disco é só o começo, porque a gente ainda não teve um tempo de convivência que uma banda merece ter para começar a produzir em larga escala.

Líder do Suricato, banda revelada em 2014 no reality show “Superstar” , Rodrigo (que tinha dois anos de idade quando o Barão foi formado) garante, porém, já estar bem integrado ao time.

— Eu saí do ataque e vim para o meio de campo para distribuir bola com esses caras, isso é o que o Barão Vermelho tem de melhor — festeja. — Durante os nossos shows, muita gente me procura para dizer que nem sabia que o Cazuza tinha feito parte da banda, ou sequer descofiava que o Barão tivesse tantos sucessos. É quase como se a gente tivesse zerado o jogo.

Canções dos quatro integrantes
“Viva” traz nove canções, compostas em diferentes combinações, por Rodrigo, Guto, Maurício e Fernando Magalhães (guitarrista do Barão desde 1986). A balada “Um dia igual ao outro” e o rock “Vai ser melhor assim, por sinal, são só do líder do Suricato.

— Esse disco do Barão não são nove soluços, são nove músicas que falam entre si, onde todo mundo está representado de alguma forma — assegura Rodrigo, que recentemente lançou um álbum do Suricato, “Na mão as flores”. — Eu componho em grande quantidade, então trouxe algumas coisas que faziam sentido para o Barão. “Eu nunca estou só” ia entrar no disco do Suricato, com uma outra letra, que não passou na audição do Barão. Mas aí todos fora metendo o bedelho e ela acabou entrando no “Viva” aos 45 minutos do segundo tempo. Hoje me reconheço um outro compositor no Barão Vermelho. A dinâmica de grupo me empurra para um outro lugar.

Com participações do rapper BK (em “Nunca estou lá”) e de Letícia Letrux Novaes (em “Pra não te perder”), “Viva” será apresentado ao vivo pelo Barão Vermelho este sábado, em São Paulo, na Casa Natura Musical. Para o Rio, o grupo estuda uma data em dezembro. No baixo, no lugar de Rodrigo Santos ( que deixou o grupo em 2017, após 25 anos de banda), estará Márcio Alencar, músico contratado que gravou algumas faixas do novo disco.

Crítica: Em ‘Viva’, Barão Vermelho tropeça no desafio de se reinventar mantendo identidade
Leonardo Lichote

Uma banda tem que se renovar. Uma banda tem que afirmar sua identidade. O choque entre os dois mandamentos da cartilha do rock desafiam há alguns anos a geração 1980 do rock brasileiro. “Viva”, primeiro álbum de inéditas do Barão Vermelho desde 2004, traz na cara esse desafio — e a dificuldade que o grupo enfrenta para conseguir se equilibrar sobre essas demandas.

A maior dificuldade, no caso do novo Barão, é a manutenção do lastro da identidade. A banda soube se reinventar lindamente, reforçando sua personalidade, na primeira vez que perdeu um vocalista — com a saída da estrela Cazuza em 1985. Neste primeiro álbum sem Frejat, porém, a façanha não se repete. Não que Rodrigo Suricato não sustente o papel de nova voz e guitarra do Barão— o que já vinha mostrando nos palcos. A fragilidade do álbum é outra.

Em primeiro lugar, há uma ansiedade de soar jovem se identificando com a (anêmica em letra, postura, viço) cena contemporânea do pop-rock nacional — em faixas como “Eu nunca estou só” (com participação do rapper BK, num formato de colaboração repetido à exaustão nessa cena) e “Por onde eu for”. Por outro lado, a afirmação da “cara do Barão” — se funciona bem na sonoridade de “Tudo por nós 2″ ou “A solidão te engole vivo” — por vezes soa quase como pastiche. “Vai ser melhor assim”, por exemplo, emula a estrutura de “Tão longe de tudo” (lançada em 1990).

A despeito da questão renovação/identidade, há outra ainda mais funda: a baixa qualidade da safra de canções. Há bons momentos, como “Pra não te perder” — que acerta na ponte com gerações mais jovens na participação de Letíca Novaes (Letrux) — e “Castelos”, ambas baladas bem construídas. Mas em geral as letras, sobretudo, não alcançam o nível da produção clássica da banda. E não deixa de ser curioso como registro da ação do tempo (na vida, na arte) ver o mesmo grupo que cantou “Mais uma dose/ É claro que eu tô a fim” clamar por “menos açúcar” e “menos cigarros” (“Tudo por nós 2″).

Cotação: Regular

URL original: https://oglobo.globo.com/cultura/barao-vermelho-esse-um-disco-de-sobrevivencia-diz-baterista-guto-goffi-23874731

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